terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Em 2012, solte a sua voz!

Lá estava eu, diante da professora de música e sem conseguir emitir uma única nota. Ela disse que eu precisaria cantar, balbuciar algo para que a aula de canto realmente valesse a pena. O silêncio é parte da música, mas aquele silêncio cortante e constrangedor não ajudaria na hora de ensinar (e aprender) as técnicas vocais.

Por alguns minutos fiquei questionando porque, afinal, tinha me inscrito naquele conservatório. Por que não deixei a vontade de cantar enterrada na gaveta de coisas para serem feitas em outras vidas? Tá, é legal persistir, é sempre tempo de aprender e viver algo novo, mas aquela cena patética não era tão inspiradora assim...

Deve ser como alguém que sempre quis andar de bicicleta, mas diz que o tempo de cair e ralar o joelho já passou. Ou quem sempre tentou dar uma voltinha pela cidade, mas nunca tirou o carro da garagem. Tem hora que a gente desiste, fingindo que está tudo bem, silencia diante da dificuldade que, de uma hora para outra, nos faz ficar parados. E olha que a vida precisa de movimento, não é mesmo? Nem que seja a partir das rodas de uma bicicleta ou de um carro.

Quando os meus pensamentos pareciam não ter fim, sou interrompida novamente por aquela mulher irritantemente afinada. Ela só quer saber o que me trouxe até lá e se eu já estava preparada para tentar novamente. Eu queria. Muito. Mas a voz não saía.

Lembrei que minha irmã disse que as cócegas que eu tanto sentia enquanto ela aplicava técnicas de Shiatsu em mim eram, na verdade, uma fuga para evitar o toque. Sério? Pensei que fosse o meu lado divertido aflorando durante a massagem. Quantas risadas amarelas, sem graça e forçadas não demos numa situação em que a vontade (única e verdadeira) seria gritar e contar para todo mundo o que estávamos realmente sentindo?

Estava sem voz e pensei que se eu saísse correndo da aula de canto ficaria com fama de doida muda. Foi então que eu transformei a aula em terapia. Eu desabafei e a professora apenas ouviu: “Hoje, infelizmente, não conseguirei fazer o exercício que você propôs, por mais simples que pareça. A voz não sai, ela está abafada pelo orgulho. Medo de tentar, fracassar e parecer uma adulta boba, sem talentos ou sensibilidade. Hoje, saio fracassada desta aula, mas prometo voltar como uma mulher desafinada, corajosa e com a voz livre. Até a próxima semana, professora”.

Adriana Crosariol, jornalista da Agência Nude

0 comentários: